ISPN - Instituto Sociedade, População e Natureza

7.05.19

Parteiras indígenas: mãos que geram vidas

“É um dom, é uma vontade grande de trazer ao mundo uma vida. Uma vocação.  E quando a gente consegue, quando sai tudo certo, eu fico muito feliz. Eu nunca cortei uma mulher, nenhuma nunca morreu. Isso, eu sou feliz. Sou muito orgulhosa!”, responde a indígena Socorro Guajajara, ao lado da filha Fátima Guajajara, ao ser perguntada sobre o que é ser parteira. Há mais de quatro décadas, já ajudou dezenas de mulheres a darem à luz, trazendo seus filhos ao mundo não só na Terra Indígena (TI) Caru (Maranhão) onde mora, mas em outras partes do Brasil como ela mesma relata.  Dona Socorro parece já querer aposentar essa vocação por causa do cansaço da idade e almeja que a filha leve adiante esse ofício. Como troféu desses anos dedicados a essa dádiva, é o reconhecimento de mãe ou mãezinha pelos “filhos” paridos por suas mãos nos chãos batidos das aldeias país a fora.

Nesse sentido, com o objetivo de valorizar e promover a transmissão de conhecimentos intergeracionais num espaço de trocas de saberes da medicina Guajajara e ocidental, foi realizado o curso de extensão “Fortalecimento de Parteiras Guajajara” entre os meses de março e abril deste ano na aldeia Januária, da TI Rio Pindaré. A atividade foi uma iniciativa do ISPN, através do Programa Estratégico do Maranhão (Poema), com o Instituto de Educação do Maranhão (IFMA), Campus Zé Doca, em parceria com Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI/MA) e com Associações Indígenas Guajajara Wirazu e Maynumi.

“A ideia também foi que os dois sistemas médicos (indígena e ocidental) possam atuar em conjunto, com o apoio do DSEI para o acompanhamento de gestantes e parturientes em qualquer estágio do trabalho de parto, dando conforto físico, emocional, afetivo e psicológico. E, oferecendo à mulher Guajajara uma experiência de parto positivo, humanizado, seguro, em rede e intercultural”, explicou a assessora técnica do ISPN, Lirian Monteiro, que em conjunto com a enfermeira e professora do IFMA, Solange Santos, e a mestra parteira, Socorro Guajajara, conduziram o curso, além do apoio de quatro bolsistas do IFMA.

Ao todo, o curso foi organizado em três módulos, somando 60 horas. Com base no Livro da Parteira Tradicional, produzido pelo Ministério da Saúde, em 2012, as temáticas “Mulher, corpo e diversidade”, “A parteira na Gestação” e “Eu sei parir: experiências de parto” foram trabalhadas em diálogo com os saberes Guajajara.  Em cada etapa, tinha-se espaços para que cada participante contasse como foram suas experiências na hora de parir. As histórias contadas foram desde um parto acolhedor com a parteira até relatos mais dramáticos vivenciados em hospitais, com muitos casos de violência obstétrica. Uma das grandes preocupações das mulheres é o crescente número de partos cesarianos entre as jovens Guajajara.

Para dona Socorro, os partos que costumavam fazer eram diferentes dos que ela viu e vivenciou no hospital, pois deve ser respeitado o tempo da mulher, não deve ser realizado episiotomia (corte para ampliar o canal do parto). “A gente fazia massagem na gestante e deixava parir no tempo dela, tendo a paciência de deixar o bebê chegar em seu próprio tempo. Agora, as jovens precisam ter interesse em aprender, quando eu falecer todo o conhecimento irá embora comigo”, relatou.

Após cada depoimento das mestras, todas as participantes debatiam coletivamente sobre os exames que a parteira pode fazer na gestante, segundo o sistema oficial de saúde de forma a construir parcerias no atendimento entre parteiras e profissionais de saúde no âmbito do DSEI, Polo Base de Saúde e Posto de Saúde da aldeia. Assuntos como complicações na hora de parir, posições de parto, cuidados não farmacológicos para o alívio da dor e cuidados com o bebê foram também apresentados e discutidos também.

“Além dos debates enriquecedores, o curso gerou outros materiais, como por exemplo, a proposta de edição e publicação de alguns vídeos por módulo. Também se elaborou um calendário gestacional Guajajara, em que foi possível registrar os acontecimentos em relação aos sinais, transformações no corpo e cuidados na alimentação no decorrer do primeiro, segundo e terceiro trimestre.  No último módulo, as participantes encenaram o curta metragem ‘O parto de Háir, retratando o parto tradicional Guajajara, produzido e filmado pelos próprios Guajajara”, explicou Lirian Ribeiro.

Ao falar sobre o ofício da mãe, dona Socorro, Fátima se enche de orgulho. “Muitas de nós, que estamos aqui, viemos ao mundo pelas mãos das parteiras das nossas aldeias. São mulheres guerreiras e fortes. Faça sol, faça chuva, elas estão dispostas, pelas suas mãos, a ajudarem a dar à luz. Esse curso foi uma forma de valorizar e fazer resistência. Que esta iniciativa possa gerar muitos frutos e outras parteiras”, ressaltou Fátima Guajajara.

O curso buscou fortalecer o ofício de partejar, contribuindo para a valorização das parteiras e, talvez, o surgimento de novas vocações. Ao mesmo tempo, contribuindo para que as indígenas tenham um parto pleno, feliz e digno como todas as mulheres merecem.  Assim, o respeito e o reconhecimento às parteiras Guajajara fortalecem também o nascimento e os laços com a ancestralidade.

RESISTÊNCIA – No último 05 de maio, foi celebrado o Dia Internacional da Parteira, criado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1991 para homenagear e valorizar o trabalho desempenhado pelas parteiras no cuidado prestado às mulheres e à vida humana. São estimadas ainda no Brasil 60 mil parteiras tradicionais, inclusive dentro dos territórios indígenas. São elas que participam e ajudam em cerca de 450 mil partos por ano.

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