ISPN - Instituto Sociedade, População e Natureza

15.03.18

No mês da mulher, agricultoras de Goiás e Pernambuco trocam saberes e força

Apoiadas pelo PPP-ECOS, nos dias 6 e 7 de março, mulheres do Cerrado trocaram experiências no Sertão para superar impactos das mudanças climáticas.

“Goiás sempre teve água, mas agora nossa região vem sofrendo com uma estiagem de quase três anos.” No município de Santa Rita do Novo Destino, a cerca de 300 km de Brasília, Josimar Aparecida (Josa) vê os impactos das mudanças climáticas na sua vida. As ações do agronegócio com o cultivo de monoculturas, como a soja, agravam o desmatamento, alterando o clima. A agricultora já perdeu metade de sua produção, inclusive, culturas importantes para sua renda, como o milho e o feijão. Além de cuidar sozinha das demandas domésticas, precisou intensificar o trabalho no roçado. A cultura patriarcal no Brasil faz com que os impactos das mudanças climáticas cheguem primeiro para as mulheres.

Para aprender a driblar a situação e se empoderar em busca de mais autonomia, Josa e mais duas companheiras da Associação de Mulheres Empreendedoras Rurais e Artesanais de Barro Alto e Santa Rita do Novo Destino (AMERA), Ginercina Silva e Luzia Dalva da Silva, saíram em jornada para conhecer as experiências de convivência com o Semiárido das agricultoras do sertão de Pernambuco. O intercâmbio, que aconteceu nos últimos dias 6 e 7, foi articulado a partir do Programa de Pequenos Projetos Ecossociais – PPP-ECOS (com recursos do GEF e gerenciado pelo Instituto Sociedade, População e Natureza – ISPN) e da Casa da Mulher do Nordeste (CMN), ONG pernambucana com foco no feminismo e agroecologia.

Após um dia e meio de viagem, as goianas chegaram à cidade de Afogados da Ingazeira, localizado no Sertão do Pajeú do estado. Foram três experiências visitadas de mulheres que, apesar de viverem em regiões diferentes, possuem vivências parecidas com as agricultoras do Cerrado e também precisam lutar contra a mesma cultura machista que age para aprisioná-las no âmbito privado e negar sua autonomia e seu direito enquanto sujeitos políticos.

No dia 6, nas terras de Maria Celeste Galdino, localizada no município de Solidão, a cerca de uma hora de Afogados, puderam ver de perto como funciona um sistema que vem sendo implementado pela CMN desde 2017 no sertão: o reuso da água cinza. O sistema, apesar de novo, vem se mostrando importante para a sustentabilidade das famílias sertanejas e para a melhoria da qualidade de vida, principalmente, das mulheres. “Agora eu posso ter minhas plantações, colocar minhas frutas e não depender só do marido para colocar o pão em casa”, comentou Celeste, que vem ganhando mais independência depois do sistema implementado.

“Água cinza é aquela que vem das atividades domésticas, como lavar louça, roupa e tomar banho. No sistema, que possibilita seu reuso, ela passa por processos de filtragem. Na produção rural pode ser usada para irrigar espécies frutíferas.”

Na segunda experiência, conheceram tecnologias de convivência com o Semiárido, como a cisterna calçadão e o barreiro trincheira, ambas localizadas nas terras da agricultora Zilda Simões, que já consegue ter uma boa convivência com a seca na região a partir da utilização dessas tecnologias. Ela também possui um fogão agroecológico, instalado recentemente, e que contribui para diminuição do desmatamento da Caatinga para obtenção de lenha e otimiza seu tempo de trabalho. Além disso, efeitos danosos para a saúde, como a irritação dos olhos, não acontecem mais, pois o fogão não emite fumaça, lhe garantindo mais qualidade de vida. “Percebo que isso impacta bem as mulheres daqui, elas têm orgulho de falar de suas experiências e são empoderadas. Quero levar comigo todo esse aprendizado. Nossa terra e nossas mulheres precisam”, pontua Ginercina.

“Tecnologias de convivência com o Semiárido armazenam a água das chuvas e possibilitam às famílias agricultoras o acesso à água o ano todo. Depois da pressão da sociedade civil, em 2002, elas começaram a ser implementadas mais fortemente enquanto política, por meio da Articulação no Semiárido Brasileiro com recurso federal.”

No último dia de intercâmbio, 7, as agricultoras de Goiás aprenderam o passo a passo de como é feita a construção da tecnologia para o reuso da água cinza. Antonia da Silva recebeu o grupo em sua casa e todas acompanharam o processo de construção do seu sistema. “O debate não é apenas sobre o reuso da água, mas como todo o processo envolve e impacta na vida das agricultoras. Possibilitando a autonomia das mulheres a partir do econômico, mas sem esquecer as subjetividades e sua auto-estima”, conta a responsável por projetos da CMN, Claudineide de Oliveira.

O intercâmbio também possibilitou a troca de saberes culturais, sementes e mudas. “É muito feliz perceber como os saberes aqui são compartilhados, estou me sentindo cada vez mais autoconfiante e vou voltar pra casa fortalecida”, expressou Dalva. A linguagem de agricultora para agricultora facilita e promove um empoderamento profundo, pois cada uma se reconhece na fala da outra. Aprender de maneira horizontal destaca a importância de conectar as bases nos processos construtivos. Em Goiás, os conhecimentos também serão repassados para os demais membros da associação, o que mostra um efeito positivo em cadeia.

O gosto deixado ao final do intercâmbio foi de que ele precisa ser transformado em algo maior, alcançando mais agricultoras, permitindo que outras mulheres se fortaleçam e entendam a importância de lutarem pela sua autonomia para que alcancem sua inserção política. “Temos muita honra em receber vocês aqui no sertão. Esse intercâmbio é muito importante para fortalecer as mulheres no campo e enquanto agentes políticos, para que não precisemos abandonar nossas terras. Aqui, nós estamos recebendo vidas que estão se transformando”, concluiu Zilda.

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