O Cerrado e suas transições estão em uma situação ímpar para aliar a conservação dos recursos naturais ao desenvolvimento humano sustentável.
O bioma ocupa uma área de aproximadamente dois milhões de quilômetros quadrados nos quais se distribui uma significativa diversidade de povos que incluem populações tradicionais, indígenas, quilombolas, vazanteiros, geraizeiros, agricultores familiares e outras comunidades que vivem associadas ou dependem diretamente de sua biodiversidade - além das populações urbanas.
Esse contingente humano está estimado em cerca de 40 milhões de brasileiros que convivem direta ou indiretamente com uma das maiores biodiversidades do planeta. O bioma possui cinco por cento da flora e da fauna silvestres mundiais. Isto significa um terço da biota brasileira, com destaque para o extraordinário número de plantas: cerca de 10 mil espécies, das quais 4,4 mil exclusivas da região. Sua fauna também é significativa: 1,5 mil espécies de animais - muitos deles com grande potencial farmacológico, como é caso dos anfíbios.
Mas a biodiversidade do Cerrado está ameaçada. Cerca de 50 por cento da sua cobertura vegetal original já foram completamente destruídos sem que tivéssemos tempo de conhecer a biodiversidade que se perdeu. O restante está no caminho dos grandes empreendimentos agropecuários e é visto como um obstáculo a ser removido.
Apesar das perdas registradas principalmente nas últimas cinco décadas, o Cerrado ainda tem importância ambiental estratégica. É nas terras altas do Cerrado que nascem os rios que formam as principais bacias hidrográficas brasileiras - abastecendo de água grande parte do Brasil, inclusive a Amazônia. O bioma também fixa imenso estoque de carbono e tem grande influência sobre a manutenção do clima.
A localização do Cerrado no centro do Brasil faz dele um elo entre a Floresta Amazônica, a Mata Atlântica, o Pantanal e a Caatinga. Além de biológico, esse elo também tem a dimensão humana. Natureza e cultura se fundem no Cerrado e podem significar a possibilidade de uma experiência única no mundo, onde a biodiversidade pode servir de base para o desenvolvimento sustentável das populações humanas.
Isso deve se dar em escalas mais amplas do que as já experimentadas até aqui, sobretudo em relação às experiências apoiadas pelo Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) por meio do Programa de Pequenos Projetos Ecossociais (PPP-ECOS). O programa é financiado pelo Fundo para o Meio Ambiente Global (GEF/ONU) com apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), do Escritório de Serviços de Projetos das Nações Unidas (UNOPS) e da Comissão Européia.
A experiência na gestão dos projetos do PPP-ECOS ensinou que apenas financiar as comunidades não é suficiente. O acúmulo de conhecimento relacionado ao bioma Cerrado no âmbito do PPP-ECOS abriu a perspectiva de criação de um projeto que pudesse sistematizar esse conhecimento, direcioná-lo para a formulação de políticas públicas e, com isso, gerar impactos globais.
Foi a partir dessa premissa que se concebeu o projeto FLORELOS - Elos Ecossociais entre as Florestas Brasileiras: modos de vida sustentáveis em paisagens produtivas.
O FLORELOS atua na consolidação e multiplicação de sistemas familiares de produção envolvendo uso da biodiversidade nativa, visando a sustentabilidade econômica, social e ambiental. Apresenta propostas de base para melhor governança ecossocial, particularmente no âmbito local. Além disso, capitaliza e dissemina conhecimentos científicos e técnicos necessários para o alcance dos objetivos propostos.
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