ISPN - Instituto Sociedade, População e Natureza

20.01.09

Crises dão chance de avançar na qualificação do desenvolvimento

Por Donald Sawyer
Professor do Centro de Desenvolvimento Sustentável (UNB)

O dia 22 de dezembro de 2008 marcou os 20 anos da morte do Chico Mendes, seringueiro e sindicalista acreano que se tornou conhecido internacionalmente e ajudou a mudar a história do mundo. O momento é oportuno para reflexão sobre as implicações nacionais e universais dessa história recente.

Chico era conhecido, e talvez por isso tenha sido morto. Em 1988, quem o conhecia achava que ninguém teria coragem de assassinar uma liderança famosa por sua defesa dos seringueiros e da floresta amazônica. Engano. Por outro lado, a grande imprensa global dificilmente teria reparado na morte de um sindicalista no Acre se não soubesse que algo importante estava acontecendo na Amazônia.

A primeira notícia foi dada pelos astronautas americanos que, em meados de 1988, comentaram as queimadas vistas do espaço. Os filmes de Adrian Cowell, na Década da Destruição mostraram os problemas socioambientais da região. Chico furou a intermediação e o monopólio de informação das elites locais indo direto aos Estados Unidos. Assim, sua morte foi manchete no New York Times. Em 1989, até frentista de posto de gasolina na Dakota do Sul sabia quem era Chico Mendes.

O Brasil, até então refratário ao ambientalismo, reagiu positivamente. O governo Sarney criou o programa Nossa Natureza, o Ibama e as primeiras Reservas Extrativistas. Convidou o mundo para realizar a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento no Rio de Janeiro, em 1992.

O nome oficial da conferência foi Rio-92 em vez de Eco-92 ou Cúpula da Terra, como queriam os ambientalistas, mas consagrou o novo conceito de “desenvolvimento sustentável”. A nova síntese entre desenvolvimento e ambiente significa equidade intra e intergeneracional, o que impõe limites ao crescimento e, implicitamente, a manutenção das funções ecossistêmicas. A linguagem diplomática negociada está sujeita a abusos, mas constitui um marco na história de humanidade, depois de cinco séculos de expansionismo. Chico contribuiu para isso.

O desenvolvimento sustentável tornou-se consagrado na Amazônia, no Brasil e no mundo. Até então, o Programa Nacional do Meio Ambiente não podia atuar na Amazônia.

O Programa Piloto, as organizações de seringueiros, indígenas, trabalhadores e agricultores trabalharam com governos e cobraram deles a sustentabilidade. A Aliança dos Povos da Floresta, que Chico ajudou a fundar, transformou-se em Aliança dos Povos das Florestas, agora no plural, incluindo outros biomas.

O Acre mudou, elegendo e reelegendo o Governo da Floresta, e alguns outros estados amazônicos também mudaram muito. No plano nacional, levantou-se grande expectativa com Marina Silva, companheira de luta do Chico, no Ministério do Meio Ambiente. Sem vencer resistências, ela saiu 20 anos depois da morte do Chico e 120 anos depois da abolição. Depois de um século de relativa independência econômica, o Brasil está de novo engajado na exportação de produtos primários, um novíssimo colonialismo, prejudicando sua sustentabilidade.

Um dos resultados infelizes desta história foi o isolamento geográfico do meio ambiente, como se fosse apenas Amazônia, ficando o resto do Brasil para o desenvolvimento. A confirmação mais recente deste viés é o fato de o Plano Nacional sobre Mudança do Clima estabelecer metas de redução do desmatamento apenas para a Amazônia, quando outros biomas emitem tantos gases de efeito estufa quanto, sem contar os automóveis.

As novas crises climática e financeiro-econômica são uma oportunidade de avançar na qualificação do desenvolvimento. A verdadeira sustentabilidade coloca desafios para a sociedade, que precisa mudar padrões de produção e consumo se quiser sobreviver. Também coloca desafios para a universidade. O conhecimento necessário para a sustentabilidade implica romper com modos de pensar. O progresso e a modernidade, sem qualificação, significam destruição. O equilíbrio e a resiliência exigem complexidade, heterogeneidade, diversidade.

O apoio financeiro dos países desenvolvidos é importante, mas não pode ser pré-condição. Com Obama, os Estados Unidos não serão mais a desculpa para não assumir responsabilidade. Chico não dizia que só iria cuidar da floresta se alguém lhe pagasse. Pedia o direito de ficar na floresta, cuidando dela e de sua dignidade, em vez de ser expulso pelo agronegócio.

Chico mostrou que indivíduos podem fazer história, em determinado contexto, vivendo ou morrendo. Hoje as mortes e as ameaças de morte contra lideranças socioambientais continuam. Além disso, a violência silenciosa do mercado é generalizada. Esperamos que não precisemos de novos mártires. A sustentabilidade do mundo exige inteligência. Em vez de sangue, matéria cinza e coração.
Publicado em: JB Online – 28 de dezembro de 2008

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