ISPN - Instituto Sociedade, População e Natureza

26.05.13

Consumo Consciente

Produtos da sociobiodiversidade do Cerrado (Foto: Luiza Guasti)

Produtos da sociobiodiversidade do Cerrado (Foto: Luiza Guasti/DoDesign-s)

Do início do século passado até hoje, o mundo passou por grandes transformações. Elas vêm acontecendo rapidamente, de forma que algumas vezes mal conseguimos acompanhá-las. O cotidiano das cidades de hoje conta com uma série de serviços que intermedeiam a nossa relação básica como o mundo, como a energia elétrica, veículos e a comunicação rápida. Quem nasce hoje pode achar que tudo sempre foi assim. Mas aqueles que nasceram no início do século XX cresceram num mundo muito diferente, sem televisão e nem rádio. Há cerca de 100 anos, no Brasil, todas as roupas eram lavadas à mão, o transporte era à base de tração animal e era difícil conseguir um jornal ou revista atuais para ler. Algo que nossos adolescentes de hoje chamariam de pré-história. Parece realmente um outro mundo. Mas é o mesmo.

Em pouco mais de um século, saltamos de 1 bilhão para 7 bilhões de habitantes no planeta. Aliado ao avanço da tecnologia e do padrão de consumo, o crescimento exponencial da população levou nossa sociedade para um estágio nunca antes vivenciado: hoje temos grande capacidade de modificar o mundo. Para melhor ou para pior.

O resultado dessa equação é que nunca tivemos um desafio tão grande no mundo moderno: como atender à crescente demanda da população por bens de consumo sem comprometer a reprodução cíclica das riquezas naturais e o delicado equilíbrio dos ecossistemas?

Neste mundo complexo e diverso, não há uma resposta única para esse desafio. Dentre as poucas certezas que temos, sabemos que a tendência do nosso padrão atual é a super-exploração e o esgotamento dos recursos. Estamos consumindo 50% a mais do que a Terra pode oferecer continuamente.

Quem consome o planeta somos nós, você e eu. Demandamos recursos naturais diariamente e afirmamos a necessidade das atividades produtivas e extrativas, sejam da agricultura, da pecuária, da mineração ou da geração de energia. Apesar da disseminação do discurso da sustentabilidade, essas atividades continuam a gerar enormes passivos ambientais e sociais.

O caso do Cerrado brasileiro nos ajuda a contar a historia de como nossos hábitos cotidianos interferem na forma como os bens são produzidos. O bioma sofre com o mal uso de seus recursos e o desconhecimento de sua importância econômica, social e ecológica. Apesar de ser a savana mais rica do planeta, é a vegetação que desaparece mais rapidamente no Brasil.

O ciclo do desmatamento intensivo do Cerrado teve início na década de 70, com a chegada da revolução verde ao planalto central. A nova agricultura, baseada no aparato industrial herdado da II Guerra Mundial, introduziu insumos químicos e máquinas pesadas. Sempre existiram populações e agricultura no bioma. Porém, com as novas técnicas, basicamente 5 produtos levaram o desmatamento do Cerrado a patamares industriais: o carvão vegetal, a soja, a carne bovina, o eucalipto e a cana-de-açúcar.

Como são produzidos esses produtos? Quem os consome?

A produção de carvão vegetal foi uma das primeiras atividades que impactou de forma decisiva a vegetação do Cerrado. O boom do consumo de carvão se deu com o advento da siderurgia, especialmente para a fabricação de ferro gusa (matéria prima do aço). O Brasil é o principal produtor mundial de ferro gusa feito com carvão vegetal. O principal destino desse minério é a indústria automobilística dos Estados Unidos. Com ele são fabricados bicicletas, carros, aviões, trens, navios, implementos agrícolas, prédios, pontes e até latas de alimentos. Cerca de metade do carvão vegetal produzido no Brasil é proveniente de vegetação nativa, enquanto a outra metade é proveniente de monoculturas de eucalipto.

O plantio de eucalipto em monoculturas é uma atividade crescente no Cerrado brasileiro. Hoje, o Brasil é o quarto maior produtor mundial. Além de gerar o carvão vegetal, outro produto de grande importância é celulose. Produzida principalmente a partir do eucalipto, a celulose se transforma em papel, papelão e embalagens em geral, produtos que manuseamos todos os dias. Os principais destinos da celulose são a indústria nacional, a Europa e a China.

Já a revolução da soja no Cerrado fez do Brasil o segundo maior produtor mundial do grão. A soja produzida aqui tem como destino principal os países da União Européia. Ao chegar lá, além de ser amplamente utilizada na indústria de alimentos, grande parte vira ração para a pecuária. Seu destino final é a mesa do cidadão, seja na forma vegetal ou na forma de carne.

Em matéria de carne bovina, o Brasil também é o segundo maior produtor mundial. Além de um grande mercado interno, a pecuária do Cerrado abastece generosamente países como Rússia, China, Venezuela, Chile e países da União Européia e do Oriente Médio. É sem dúvida um grande negócio brasileiro. Porém, a tecnologia empregada na pecuária de hoje é uma das mais atrasadas do mundo. A densidade média dos rebanhos gira em torno de uma cabeça por hectare. É uma taxa extremamente baixa em relação a outros países. Eficiência na pecuária realmente não é o nosso forte. Nossos pastos são imensidões que engolem as florestas. O manejo de pastagens, que propõe técnicas que visam a produtividade e a sustentabilidade dos pastos, é um desconhecido por aqui. No Cerrado, sempre há uma área nova para desmatar e abandonar o velho pasto degradado.

A carne é um dos produtos mais impactantes para o Cerrado. Seja pela sua grande necessidade de áreas (80% das terras agricultáveis do mundo) ou pelo consumo de água (15.000 a 30.000 litros para produzir 1 kg de carne). Nos países que alimentam seu gado com ração à base de soja (provavelmente do Cerrado), são necessários em média 10 kg de soja para produzir 1 kg de carne. No Brasil, as emissões de gases de efeito estufa provenientes da pecuária são preocupantes. Áreas desmatadas e pastos degradados emitem grandes quantidades de CO2, o processo digestivo do gado emite gás metano (21 vezes mais poluente que o CO2) e a adubação nitrogenada dos pastos emite óxido nitroso (310 vezes mais poluente que o CO2).

A novidade na fronteira agrícola do Cerrado é a cana-de-açúcar para a produção de etanol (biocombustível). Esse que encontramos em qualquer posto de gasolina. O Brasil é o principal produtor mundial de etanol, responsável por mais da metade de toda a cana consumida no planeta. Como qualquer monocultivo extensivo, a cana-de-açúcar está baseada no velho ciclo do agronegócio: aquisição de terras, remoção de populações (conflitos no campo), desmatamento, emissão de gases de efeito estufa, contaminação (agrotóxicos), esgotamento do solo, erosão, perda de rios, desemprego e concentração de renda.

Hoje, devido à voracidade da demanda mundial e a sistemas produtivos mal planejados, cerca de 50% do bioma Cerrado já foram desmatados, área equivalente a 1/8 do território nacional. Essa é a “nova fase” econômica do Cerrado brasileiro. Todos nós fazemos parte dela.

Mas o que podemos fazer? A notícia boa é que isso pode mudar! O esgotamento dos recursos bate à nossa porta e a crise nos ecossistemas está nos dando a mensagem de que chegou a hora de uma transição no modelo produtivo. Precisamos apontar novos caminhos e desde já há uma série de coisas que podemos fazer individualmente.

A primeira atitude do consumidor consciente é ser crítico. Muitas vezes, temos a sensação de que não podemos fazer nada. Mas manter-se informado sobre os produtos e conversar com as pessoas sobre isso já são grandes passos! O pensamento crítico coletivo, quando maduro, tem o poder de mudar a história.

Mas esse amadurecimento não acontece de forma rápida, por isso devemos começar já. Algumas mudanças de hábito podem parecer atitudes pequenas, mas são exatamente os pontos de partida para uma nova cultura. A famosa frase “pensar globalmente, agir localmente” pode nos inspirar. Consumir, como ficou demonstrado, é um ato político. Por isso, devemos tornar o consumo um ato de cidadania. Isso é o “consumo consciente”.

Vão algumas dicas simples:

  • Ao escolher um produto pense em que tipo de economia você está colaborando. Escolha com consciência: Multinacional? Nacional? Estatal? Cooperativa? Economia familiar? Economia solidária? Gera empregos? Tira empregos? Respeita o meio ambiente? Respeita as comunidades rurais?
  • Busque informações sobre as empresas: São confiáveis? Sua atividade é sustentável? Distribui ou concentra renda? Divulgue as suas preferências, boicote as empresas que você não gosta e divulgue aquelas que você gosta.
  • Busque informações sobre os produtos que consome: São saudáveis? São sustentáveis? Viajaram muito para chegar até você?
  • Escolha empresas e produtos locais: quando você ajuda uma empresa local, ajuda toda a economia da região. Produtos produzidos na sua região são muito mais eficientes em termos de gasto energético. O transporte de produtos é quase sempre baseado em combustíveis fósseis, que emitem gases do efeito estufa e oneram o produto.
  • Quer reduzir sua pressão sobre o Cerrado?
    • Procure conhecer os produtos da sua região. Consuma vegetais da estação, pois são mais saudáveis. Estimule a economia rural, familiar e comunitária.
    • Conheça e compre produtos da biodiversidade nativa. Eles ajudam a gerar renda para famílias do campo que, por meio do extrativismo sustentável, ajudam a manter o Cerrado em pé.
    • Consuma menos carne. A carne é um dos produtos mais impactantes para o meio ambiente. A maioria das pessoas consome mais do que o seu organismo necessita ou consegue aproveitar. Comece escolhendo um dia da semana para não comer carne. Alguns nutricionistas orientam o consumo 2 ou 3 vezes por semana. Já a Agência de Impacto Ambiental da Holanda sugere que cada cidadão deve consumir 400g de carne por semana. Pergunte a um nutricionista quanta carne precisa, você pode se surpreender.
    • Consuma menos aço. Escolha transportes coletivos e alternativos ao invés do carro individual. Se você tem um carro, ofereça caronas. Não troque de carro frequentemente apenas por fetiche. Cuide do seu carro para usá-lo por muitos anos.
    • Use o papel de forma eficiente. Se possível, adquira impressoras que imprimem dos dois lados. Use a função “frente e verso” da máquina de Xerox. Tenha uma reserva de papéis de rascunho para o uso casual. Encontre uma cooperativa de catadores de materiais recicláveis para doar o que já não serve mais pra você, há centenas delas no Brasil.
    • Mostre para os amigos e familiares que você está se tornando um consumidor consciente. O exemplo é a melhor forma de mobilização.
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