ISPN - Instituto Sociedade, População e Natureza

12.11.18

A volta de Chico Mendes: a sabedoria de gerações

Após 30 anos da partida de uma das lideranças mais importantes para a proteção socioambiental, antigas e novas gerações se encontram em Brasília para fortalecerem ações futuras e coletivas.

Seringueiros, agricultores, geraizeiros, indígenas e tantos outros povos e comunidades tradicionais traduzem como o extrativismo promove a conservação ambiental defendida por Chico Mendes ao longo de sua história. Assim, entre os dias 6 e 7 de novembro, antigas e novas gerações desses povos se encontraram no Seminário Nacional da Juventude Extrativista do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), em Brasília. O CNS, que hoje converge povos de diferentes regiões do Brasil, é um dos protagonistas na defesa dos territórios tradicionais, protegendo meios de vida sustentáveis. Com o Seminário, o Conselho resgata, por meio de lideranças comunitárias antigas, a história de Chico visando fortalecer a continuidade da luta dos trabalhadores e das trabalhadoras rurais por meio do protagonismo da juventude.

Chico Mendes, presente.

São diversas as políticas e iniciativas nacionais e internacionais resultantes do legado de Mendes e importantes para a conservação da biodiversidade e a defesa dos povos. O ex-presidente da CNS, Joaquim Belo, do Amapá, lembra que o conceito e a implementação de reservas extrativistas, por exemplo, foram cruciais para garantir o direito ao território de agricultores e povos e comunidades tradicionais na Amazônia, no Cerrado, na Mata Atlântica e demais biomas brasileiros. “Junto com as Unidades de Conservação (UC’s), elas são vistas como meios políticos que asseguram aos povos a proteção necessária para a continuidade dos seus modos de vida alinhadas ao uso sustentável da biodiversidade”, explanou durante o seminário.

O representante do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Mauro Pires, trouxe outras políticas resultantes do legado de Chico, como o Programa Piloto para Proteção das Florestas Tropicais do Brasil (PPG7), a Lei Chico Mendes, o Programa Amazônia Solidária, o Fundo Amazônia, dentre outras. Pires ainda comentou sobre a representatividade do Brasil nas convenções internacionais a partir do significado que Chico passou a ter para o mundo. “Começamos a ter muita importância na Conferência de Biodiversidade (CDB), por exemplo. Nesse e em outros espaços internacionais, nos tornamos referência em debates como o combate ao desmatamento”.

Fábio Vaz, Coordenador Executivo do ISPN, organização apoiadora do seminário, trouxe ainda ações que, além de fortalecerem a luta pela sociobiodiversidade, permitem o protagonismo político dos povos, também defendida pela simbologia de Mendes. “O PPP-ECOS [Programa de Pequenos Projetos Ecossociais] é um exemplo de iniciativa que, além de permitir a inserção produtiva dos povos e comunidades tradicionais, possibilita que elas influenciem e acessem políticas públicas”. Vaz também destacou a importância de redes como o CNS para a resistência na atual conjuntura política. “É importante resistir, mas resistir de forma articulada”.

Gerações de saberes pela resistência

Diante da releitura das políticas conquistadas pela trajetória de luta de Chico e seus contemporâneos, também foi destacado a importância da juventude na perpetuação dessa história. Para outro ex-presidente do CNS, Júlio Barbosa, a luta de Chico Mendes permanece viva na trajetória dos povos que resistem pelo território e por direitos. Segundo o seringueiro do Acre, esse legado não pode ser abandonado, e a juventude tem papel crucial nessa jornada. “O grande desafio dos jovens hoje é dar continuidade à luta de Chico, que é a nossa luta. Diante da conjuntura que vivenciamos no Brasil, a juventude é quem pode impedir que os sonhos de Chico acabem”.

Quem reforçou o raciocínio de Barbosa foi o também ex-presidente da CNS, Atanagildo Matos, também seringueiro. O paraense refletiu sobre a importância do aprendizado coletivo entre diferentes gerações para a criação de estratégias de luta e resistência. A partir do que Chico Mendes pensava, discutia e escrevia, Matos defende que não se pode desvalorizar as sabedorias antigas, mas entender como elas fortalecem as políticas socioambientais. “A inteligência não envelhece, o que nós raciocinamos é dinâmico”.

A voz da juventude também esteve presente, compartilhando processos de lutas atuais e reverberando aprendizados colhidos por seus antepassados. “Qual o legado que nós extrativistas vamos deixar daqui 30 anos? Precisamos criar redes para mobilizar a juventude, as bases e nossas comunidade. Aprendi que é preciso resistir na ideia de que o coletivo constrói”, defendeu a jovem extrativista do Pará e estudante do curso etnodesenvolvimento da Universidade Federal do Pará, Leticia Moraes.

Para o gerazeiro Samuel Caetano, do Norte de Minas, o papel da juventude é ocupar os espaços acadêmicos, os sindicatos e outros meios onde possam ter voz. “Temos que fazer um processo de descolonização e contar nossa história, porque o protagonismo tem que ser nosso.” Samuel ainda conta que o norte utópico é necessário e serve como estratégia de resistência. “É preciso acreditar nas nossas utopias. Chico Mendes era uma pessoa das utopias e olhem o legado que ele nos deixou”, defende.

Ainda para a juventude, a partir da percepção que tiveram sobre a trajetória de lideranças que as antecederam, é preciso valorizar e enaltecer as culturas e modos de vida tradicionais, o que também contribui para a desaceleração do êxodo rural. Os jovens presentes pontuaram a importância em perceber o processo de luta como algo transitório, que, assim como o saber e a cultura, é passado de geração para geração. É essencial resistir no campo com  consciência sobre o valor presente nas formas de ser dos extrativistas e povos e  comunidades tradicionais.

A voz coletiva de Chico está presente, quando as antigas lideranças transmitem a sabedoria popular sobre a conservação da biodiversidade para as novas gerações. Raimundo Mendes, agroextrativista do estado do Acre e primo de Chico Mendes, defende que a luta e os direitos da juventude rural devem ser conhecidos e valorizados também pela juventude urbana. “Nossos jovens rurais devem ter o direito de crescer e viver no campo de forma intelectual, e fazer com que o campo seja produtivo de forma sustentável. Essa é a luta que eu, Chico e outros companheiros fizemos no passado e continuamos fazendo no presente”, comentou.

Dessa forma, os debates levantados durante o Seminário se transformaram em uma carta política com objetivos e ações para a juventude desenvolver nos próximos 30 anos. Afinal, Chico Mendes renasce nas ações coletivas que promovem o desenvolvimento ambiental sustentável e socialmente justo. Ele revive na proteção de seus sonhos transmitida de geração em geração.

Confira a carta do encontro aqui.

Chico Mendes, Herói do Brasil – A exposição

O encerramento do Seminário aconteceu no dia 7, no entanto, seus debates e o imaginário construído permanecem no Museu da República até 9 de dezembro, por meio da exposição multimídia “Chico Mendes, Herói do Brasil”. A entrada para visitação é franca e a exposição fica aberta de terça a domingo, das 9h às 18h30.

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