ISPN - Instituto Sociedade, População e Natureza

25.09.08

A última fronteira?

Foto: Jaime Gesisky

Por Nurit Bensusan*

“Vó, eu li um livro super legal, chama-se Grande Sertão Veredas, a história é bem interessante, mas o melhor é a paisagem imaginária que o autor, Guimarães Rosa, criou. É o tal do Grande Sertão… Vó, achei que ele tem mais imaginação do que o cara do Senhor dos Anéis…” Imagino que isso é o que ouvirei dos meus netos lá por 2035. Vai ser difícil explicar que a tal paisagem imaginária de Rosa existia, sim, e se chamava Cerrado. Vai ser difícil contar a eles que aquele tipo de vida dos personagens também existia no Cerrado. E vai ser bem mais difícil confessar a eles que deixamos um dos biomas mais ricos do planeta ser completamente destruído.

“Como aumentar a produção de soja sem derrubar nenhuma árvore”. Essa chamada, na capa da revista da companhia aérea, atraiu minha atenção quando entrei no avião. Achei que se tratava de uma reportagem sobre o aumento da produtividade com a utilização de novas tecnologias e me preparei para ler um conjunto de argumentos, no mínimo controversos, sobre as vantagens dos transgênicos, entre outros. Qual não foi a minha surpresa quando abri a revista na página da matéria e percebi que eu estava completamente equivocada: não se tratava de aumentar a produtividade ou algo assim, a idéia era expandir o cultivo da soja no cerrado e assim não derrubar nenhuma árvore… na Amazônia! As árvores do Cerrado, então, não contam…

Não é fácil ser Cerrado em um país que possui a maior floresta tropical úmida, a Amazônia, e um dos biomas mais biodiversos e mais ameaçados do mundo, a Mata Atlântica. Mas, o resultado disso é que vivemos no pior dos mundos: o Cerrado não é nada valorizado e suas taxas de desmatamento absolutamente escandalosas; a Amazônia padece de taxas de desmatamento exorbitantes também, contadas em campos de futebol por minutos; e a Mata Atlântica, com seus parcos remanescentes, mal consegue se manter, quanto mais se recuperar.

Os que acham que estamos fazendo uma troca – entregamos o Cerrado no altar do sacrifício da soja e dos bois para garantir a floresta amazônica – estão equivocados por vários motivos. Um deles é a nossa significativa eficiência para a predação, ou seja, conseguimos desmatar e degradar vários ambientes ao mesmo tempo. Outro motivo é a interconexão entre os biomas, quer dizer, não é possível converter toda a área do Cerrado em pastos ou cultivos agrícolas e imaginar que a Amazônia passará incólume. Além da questão dos recursos hídricos, uma relação bastante evidente, dado que os rios que compõem a bacia Amazonas/Tocantins nascem no Cerrado, há inúmeras outras conexões entre esses ambientes e sua biodiversidade.

Vale dizer, ainda, que o sacrifício é descomensurado. O Cerrado é um bioma riquíssimo, com inúmeras espécies endêmicas e com enorme potencial de ser ocupado de forma mais racional. Não teremos a chance de conhecer todas as espécies abarcadas pelo Cerrado. Não conheceremos seu potencial. Além disso, é desmedido, esse pretenso sacrifício, porque o Cerrado abriga inúmeras comunidades rurais, fonte de diversidade cultural, de conhecimentos, de práticas e de inovações. Com o fim do Cerrado, estimado para 2030, se continuarmos pelo caminho que vamos, toda essa riqueza vira lenda. Mas o que não virará lenda é a nossa sanha predatória que, ignorando essa suposta troca, não dará trégua aos nossos outros biomas e acabará varrendo-os do mapa também.

O Cerrado não é a nossa última fronteira natural, mas é, talvez, a nossa última fronteira ética. Já acabamos com a Mata Atlântica, já devastamos inúmeros ambientes desse país; agora que conhecemos um pouco melhor a importância da natureza, permitiremos que o Cerrado engrosse essa lista fúnebre?

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*Sobre a autora: Nurit Bensusan é bióloga, autora de vários livros sobre conservação e biodiversidade, entre os quais: Biodiversidade: É pra comer, vestir ou passar no cabelo? pela editora Peirópolis. Assina o blog Nosso Planeta (http://oglobo.globo.com/blogs/nossoplaneta/)

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