ISPN - Instituto Sociedade, População e Natureza

26.07.18

Educação para resistência no campo

Por assessoria de comunicação do ISPN

Criadas no final da década de 60, as Escolas Agrícolas nos ensinam que a educação

contextualizada é adubo para a luta e para a vida no campo.

“Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares.” Em Vidas Secas, Graciliano Ramos retrata um Brasil no qual o urbano sequestra as narrativas do campo. O Sertão das Vidas Secas também é a zona rural de todo um país que prioriza as políticas voltadas ao âmbito urbano e subestima o potencial democrático do rural. Na realidade brasileira de negação de direitos, inclusive à educação, a seca não é um fenômeno da natureza, mas a junção de sintomas econômicos, políticos e sociais que expulsam personagens de suas terras em busca da (re)sobrevivência. Como o autor alagoano nos conta, a reorganização das trajetórias políticas no campo começa, antes de tudo, com o acesso à educação contextualizada, de alternância e qualidade para os filhos da zona rural brasileira.

“Quero aprender, me formar e voltar para cá, ser um produtor rural e 
seguir com a luta da vida no campo.” Adriano Gonzaga, 17 anos.

A realidade das escolas no campo do Brasil

Segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 40 mil unidades escolares encerraram suas atividades nos últimos 15 anos, o que obrigou milhares de crianças e adolescentes percorrem longas distâncias para acessarem o ensino em outras localidades. O fechamento de escolas rurais ainda provoca a fragilização de identidades culturais e promove o êxodo rural.

“Quando uma escola fecha, há uma comunidade que morre um pouco mais”

Citação de professor rural no artigo”“Qual o Futuro das Escolas no Campo?”.

De acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), 9,5% das escolas do campo não possuem luz elétrica e só 25% têm bibliotecas. Para a doutora em educação Célia Vendramini, “o futuro das escolas está diretamente relacionado com o futuro do campo, um espaço em crescente urbanização e mudanças.” As escolas rurais localizam-se em áreas sujeitas ao acelerado processo de urbanização e à diminuição de terras para plantações, disputadas pela agricultura de grande escala, as indústrias e os grandes projetos. Esse regime leva grande parte da população rural, inclusive a juventude, buscar oportunidades e educação nas grandes cidades.

As Escolas Famílias Agrícolas e o canto da resistência

Alunos da Escola Família Agrícola da cidade de Orizona (GO)

Diante das problemáticas políticas, sociais e econômicas para a vida e educação no campo, há quem resista e se organize de forma coletiva. No fim dos anos 60, surgiam as primeiras Escolas Famílias Agrícolas de Ensino Médio e Educação Profissional (EFA’s) no Brasil voltadas para a juventude rural. Geridas por associações de moradores/as e sindicatos de trabalhadores rurais das comunidades, as EFA’S estabelecem relações entre a agricultura familiar, a escola e o movimento pela educação no campo. “Há integração entre escola e família. Os alunos levam experiências e orientações técnicas para as propriedades, fortalecendo o desenvolvimento local, o que é essencial para manter nossa vida na roça.”, diz Suzana Gonzaga, mãe de aluno.

A metodologia da alternância é quem rege a filosofia didática desses espaços. Ela contribui para que o “fazer educacional” das EFA’s derrube os muros que separam a instituição do contexto real e do trabalho. Essa metodologia permite o  ensino contextualizado e promove a reflexão sobre o cotidiano rural que, por sua vez, se torna fonte de inspiração para a construção do saber local coletivo. Essas escolas têm como marca o caráter político e social.

A criação das EFA’s vem ajudando a solucionar as problemáticas da educação voltada ao urbano e a falta de escolas de ensino médio no meio rural, o que levavam muitos jovens a somarem-se ao movimento campo-cidade. No entanto, a contribuição da educação contextualizada e da metodologia de alternância não se refere somente à contenção do êxodo rural, mas à construção de uma nova relação entre a educação e o local de maneira estruturada e de valorização dos saberes comunitários, estimulando a luta e a resistência no campo.

A Escola Família Agrícola de Orizona (EFAORI)

“Fundamentos da filosofia” era o livro levado por um dos alunos durante a mística de apresentação da EFAORI para representantes do ISPN, que apoiou dois projetos para o desenvolvimento da escola por meio do PPP-ECOS. O ato simbólico conseguiu traduzir a proposta da instituição na promoção do diálogo entre a educação e a formação política e social da juventude.

Na EFAORI, nos formam profissionalmente e socialmente” 

Vanessa Cacheta, aluna da EFAORI, 16 anos. 

Criada em 1998, a escola de Orizona (GO) reúne alunos/as de famílias agricultoras da região. Entre aulas de matemática, história e português, aparecem os ensinos de zootécnica, irrigação, oleicultura entre outras. A proposta político pedagógica da EFAORI impacta na melhoria das propriedades rurais dos alunos. Os pais ajudam na implantação dos projetos dos filhos, que têm nessas iniciativas  importante incremento ou a própria fonte de renda. “Nós aplicamos na propriedade técnicas que aprendemos, como a implementação de hortas e a criação de aves, sempre de forma agroecológica”, diz o aluno Adriano Gonzaga. A avicultura, projeto do irmão mais velho egresso da EFAORI, é a principal fonte de renda da sua família.

A dinâmica proporcionada pelas EFA’s promove uma nova relação dos jovens com suas famílias e comunidades. Eles passam a acreditar no desenvolvimento local. “Eu quero aprender, me formar e voltar para cá para ser um produtor rural e seguir com a luta da vida no campo”, conta Adriano. Para os pais, há o sentimento do recontar de uma nova história, feita pela própria juventude, questionando a narrativa das Vidas Secas.

“O importante no projeto dos meninos é a gente segurar a família” 

Sebastião Cacheta, pai de aluna e egressos da EFAORI

 A educação no campo e a garantia de direitos

Segundo Célia Vendramini, é preciso considerar o contexto social, político e econômico para a existência das escolas rurais. O fortalecimento de programas institucionais, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Aescolar (PNAE), a facilitação de acesso ao mercado para a produção familiar e a garantia de direitos básicos, como o acesso à água, são exemplos de medidas que fortalecem a vida rural e dão condições para a permanência do jovem no campo. A partir do ponto de vista da pesquisadora, a luta pelo ensino adequado está associada às reivindicações por políticas públicas.

“É uma tentativa de associar as lutas de âmbito econômico com as sociais e políticas”

Célia Vendramini, doutora em educação. 

As EFA’s, nessa perspectiva, são importantes instrumentos de resistência por reunirem formação não apenas técnica, mas social, coletiva e política. “A EFAORI não só incide na produção, mas também na organização social. Encontramos egressos nossos em sindicatos, em serviços de assistência técnica pública e nas propriedades produzindo de maneira diferente. A EFAORI é um oasis para um momento de crise de valores”, comenta o professor Antônio Baiano.

“A Terra pra mim é tudo, significa vida”

A fala de Seu Sebastião desconstrói a história das Vidas Secas. O pai de Vanessa, aluna da EFAORI, e de seus irmãos mais velhos, egressos da escola, representa uma história que vem sendo recontada pelos filhos por meio da educação. Mas essas novas narrativas precisam de financiamento, um dos maiores entraves para a continuidade das EFA’S, que podem ser por vias públicas, privadas e/o por organismos internacionais. A falta deles pode levar à descontinuidade das atividades, à mudança do caráter sócio-educativo e, até mesmo, ao fechamento das escolas. Além disso, é preciso garantir a infraestrutura, bibliotecas, investir em recursos humanos, tecnologias, dentre outros instrumentos que asseguram a qualidade do cotidiano escolar e comunitário.

A educação contextualizada pauta a própria redemocratização do país ao proporcionar a liberdade de escolha da juventude, dando condições para a permanência na terra. O jovem não é impedido de viver nos grandes centros urbanos, mas a eles é dada a chance de fortalecer suas raízes. O êxodo rural deixa de ser um problema social e passa a ser parte de um passado recontado por um futuro de luta por direitos. Um amanhã quando a educação é (re)conhecida enquanto modo de resistência social e instrumento estratégico para a conquista de outras políticas para o campo: botar as coisas nos seus lugares, educar para se defender.

Vanessa implantou uma horta na propriedade de sua família pela EFAORI

“O PPP-ECOS ajuda a manter a escola, transforma o espaço onde aprendemos e nos dá mais estrutura para continuarmos pensando num futuro”

                                                      Vanessa Cacheta

 

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